Disciplina e foco

Técnicas de estudo comprovadas pela ciência: o que funciona e o que é perda de tempo

Por Thiago Ferreira, Head de Marketing da TWE Educação · Leitura de 7 minutos

Pense em como você estudou para a última prova. Se a resposta é "li o material de novo, grifei o mais importante e li mais uma vez na véspera", você está com a maioria. Em uma pesquisa com 177 universitários nos Estados Unidos, 83,6% disseram que releem o conteúdo para estudar, e 54,8% apontaram a releitura como a principal estratégia. Só 10,7% disseram que testam a si mesmos.

O problema é que a técnica mais popular está longe de ser a que mais funciona. A boa notícia é que a lista do que funciona é curta, gratuita e cabe em qualquer rotina.

O estudo que comparou 10 técnicas

Em 2013, cinco pesquisadores de psicologia cognitiva e educacional, liderados por John Dunlosky, da Kent State University, publicaram uma revisão sobre as técnicas de estudo mais usadas. Para cada uma, olharam se o benefício aparecia com estudantes de idades diferentes, com materiais diferentes, em tipos diferentes de prova e depois de intervalos longos. No fim, deram uma nota de utilidade: alta, moderada ou baixa.

TécnicaO que éUtilidade
Testar a si mesmoTentar lembrar o conteúdo sem olhar: questões, flashcards, escrever o que sabeAlta
Estudo espaçadoDistribuir o estudo em várias sessões ao longo dos diasAlta
Perguntar "por quê?"Explicar para si mesmo por que um fato é verdadeiroModerada
AutoexplicaçãoExplicar como uma informação nova se liga ao que você já sabeModerada
Prática intercaladaMisturar tipos diferentes de problema na mesma sessãoModerada
ResumirEscrever resumos do que leuBaixa
GrifarMarcar as partes importantes do textoBaixa
Palavra parecidaAssociar um termo novo a uma palavra de som parecido e a uma imagemBaixa
Imagens mentaisCriar imagens na cabeça enquanto lêBaixa
RelerLer o mesmo material de novoBaixa
Nota baixa não quer dizer que a técnica não serve para nada. Quer dizer que o benefício é pequeno, aparece só em situações específicas ou tem pouca evidência.

As duas técnicas que mais funcionam

1. Testar a si mesmo

Testar não serve só para medir o que você sabe. O esforço de puxar a informação da memória fortalece essa memória. É o que os pesquisadores chamam de prática de recuperação.

Um experimento de 2006, de Henry Roediger e Jeffrey Karpicke, mostra o efeito com clareza. Estudantes leram um texto de três formas: quatro leituras seguidas; três leituras e um teste; uma leitura e três testes. Cinco minutos depois, quem leu quatro vezes lembrava mais (83% das ideias do texto, contra 71% de quem fez três testes). Uma semana depois, o resultado se inverteu: quem fez três testes lembrava 61% das ideias, e quem só releu, 40%.

O detalhe mais importante vem antes da prova final. Logo depois de estudar, os alunos que só releram foram os que mais acreditavam que iam lembrar. A releitura dá a sensação de domínio porque o texto parece familiar. Familiaridade não é o mesmo que conseguir lembrar sozinho.

Como aplicar:

  • Depois de ler um capítulo, feche o material e escreva tudo o que lembra. Só então confira.
  • Transforme cada tópico em perguntas e responda sem consultar.
  • Use flashcards com a pergunta de um lado e a resposta do outro.
  • Faça questões de provas anteriores antes de sentir que "já sabe tudo".

2. Espaçar o estudo no tempo

Três horas de estudo rendem mais divididas em três dias do que em uma noite. O espaço entre as sessões faz você esquecer um pouco, e recuperar o que estava se perdendo reforça a memória.

Quanto espaço? Um estudo de 2008, com 1.354 participantes, testou intervalos de zero a 105 dias entre duas sessões de estudo e provas feitas de uma semana a quase um ano depois. A conclusão: o melhor intervalo depende de quando você vai precisar da informação. Os intervalos que deram o melhor resultado foram estes:

Quando é a provaQuando revisar depois da primeira sessão
Daqui a 1 semana1 dia depois
Daqui a 5 semanasCerca de 11 dias depois
Daqui a 10 semanasCerca de 3 semanas depois
Daqui a 1 anoCerca de 3 semanas depois
Revisar no mesmo dia rende menos do que parece. A revisão funciona melhor quando você já esqueceu um pouco. A explicação completa está no artigo sobre a curva do esquecimento.

As técnicas que ajudam em parte

Perguntar "por quê?". Em vez de ler "a água ferve a 100 °C ao nível do mar", pergunte por que ao nível do mar e o que muda na montanha. A resposta obriga você a ligar o fato ao que já sabe.

Explicar com as próprias palavras. Em um estudo de 1994, alunos do 8º ano leram um texto sobre o sistema circulatório. Os que foram estimulados a explicar cada frase para si mesmos melhoraram 32% entre o teste inicial e o final; os que leram o texto duas vezes melhoraram 22%. O método Feynman é uma forma organizada de fazer isso.

Misturar tipos de problema. Em matemática, fazer dez exercícios do mesmo tipo seguidos parece produtivo, mas você não precisa decidir qual caminho usar. Misturar tipos diferentes treina justamente essa escolha, que é o que a prova cobra.

As técnicas que parecem boas e rendem pouco

Reler. É a técnica mais usada e das menos úteis. O texto fica familiar e isso passa a impressão de aprendizado.

Grifar. Marcar o texto é fácil e dá a sensação de progresso. O problema é que grifar não obriga você a lembrar nem a explicar nada. O grifo pode ajudar a encontrar um trecho depois, desde que venha acompanhado de teste.

Resumir. Funciona para quem já sabe resumir bem. Para a maioria, o resumo vira cópia de frases do texto, o que se parece mais com reler do que com aprender.

Como montar uma sessão de estudo com o que funciona

Um jeito simples de juntar as técnicas de maior utilidade em uma sessão de uma hora:

  1. Primeiros 5 minutos: sem olhar nada, escreva o que você lembra da última sessão.
  2. Próximos 30 minutos: estude o conteúdo novo, perguntando "por quê?" a cada ideia importante.
  3. Próximos 15 minutos: feche o material e responda perguntas sobre o que acabou de estudar.
  4. Últimos 10 minutos: confira os erros e anote o que precisa voltar. Marque a revisão na agenda, no intervalo da tabela acima.

Vai parecer mais difícil do que reler. É esse esforço que faz o conteúdo ficar.

Por que quase ninguém estuda assim

Porque as técnicas que funcionam são desconfortáveis no momento em que você as usa, e as que funcionam pouco são confortáveis. Errar uma pergunta sobre algo que você acabou de ler incomoda. Reler um texto conhecido é agradável. Sem saber disso, a escolha natural é a errada.

Na TWE Educação, partimos dessa ideia: ter visto um conteúdo não é o mesmo que conseguir usar o que viu. É a diferença entre decorar e aprender.

Perguntas frequentes

Qual é a técnica de estudo mais eficaz?

Na revisão de 2013, as duas técnicas com nota mais alta foram testar a si mesmo e distribuir o estudo em várias sessões ao longo do tempo. Elas funcionam melhor juntas: estudar, se testar e voltar a se testar dias depois.

Grifar o texto não ajuda em nada?

Ajuda pouco. Grifar pode servir para localizar um trecho depois, mas não substitui tentar lembrar o conteúdo sem olhar.

Quanto tempo depois devo revisar?

Depende de quando você vai precisar do conteúdo. Para uma prova em uma semana, o melhor intervalo encontrado foi de um dia. Para provas mais distantes, o intervalo cresce, como mostra a tabela deste artigo.

A técnica Pomodoro está entre as técnicas comprovadas?

O Pomodoro não fez parte das 10 técnicas avaliadas nessa revisão. Ele organiza o tempo de estudo em blocos, mas não diz como estudar dentro de cada bloco. Dá para usar os dois juntos.

O Caos e a Resistência

O material gratuito da TWE Educação sobre conhecimento, escolha e a distância entre saber e agir.

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Thiago Ferreira
Thiago Ferreira

Thiago Ferreira é Head de Marketing da TWE Educação e trabalha desde 2007 com marca, experiência do cliente e treinamento de equipes, em empresas como P&G, JBS, Ambev, BRF e iFood. É formado em Psicologia pela UNIP, com especialização em Neuromarketing pela FAAP e em Educação Corporativa e Inovação Estratégica pela PUCPR.

Fontes

  1. Dunlosky, J., Rawson, K. A., Marsh, E. J., Nathan, M. J., & Willingham, D. T. (2013). Improving students' learning with effective learning techniques. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4 a 58. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1529100612453266
  2. Roediger, H. L., & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249 a 255. https://journals.sagepub.com/doi/10.1111/j.1467-9280.2006.01693.x
  3. Karpicke, J. D., Butler, A. C., & Roediger, H. L. (2009). Metacognitive strategies in student learning: do students practise retrieval when they study on their own? Memory, 17(4), 471 a 479. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19358016/
  4. Cepeda, N. J., Vul, E., Rohrer, D., Wixted, J. T., & Pashler, H. (2008). Spacing effects in learning: a temporal ridgeline of optimal retention. Psychological Science, 19(11), 1095 a 1102. https://journals.sagepub.com/doi/10.1111/j.1467-9280.2008.02209.x
  5. Chi, M. T. H., De Leeuw, N., Chiu, M. H., & LaVancher, C. (1994). Eliciting self-explanations improves understanding. Cognitive Science, 18(3), 439 a 477. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1207/s15516709cog1803_3