Disciplina e foco

Curva do esquecimento: o que Ebbinghaus descobriu e como usar para estudar

Por Thiago Ferreira, Head de Marketing da TWE Educação · Leitura de 6 minutos

Você estuda um assunto, entende tudo, e três dias depois parece que nunca viu aquilo. Não é falta de capacidade. É o jeito normal como a memória funciona, e ele foi medido pela primeira vez há mais de 140 anos.

O que é a curva do esquecimento

Hermann Ebbinghaus queria medir a memória sem a ajuda do significado. Para isso, criou listas de sílabas sem sentido (combinações como consoante, vogal, consoante) e decorou essas listas ele mesmo, até conseguir recitar cada lista sem erro. Depois de um intervalo, que ia de 20 minutos a 31 dias, voltava a decorar a mesma lista e anotava quanto tempo levava.

Se na segunda vez ele precisasse de menos tempo, era sinal de que algo tinha ficado na memória. Essa diferença se chama economia. Em 1885, ele publicou os resultados no livro Sobre a memória (Über das Gedächtnis). O gráfico da economia ao longo do tempo ficou conhecido como curva do esquecimento.

Os números originais

Tempo depois de decorarEconomia ao reaprender
20 minutos58,2%
1 hora44,2%
9 horas35,8%
1 dia33,7%
2 dias27,8%
6 dias25,4%
31 dias21,1%
Como ler a tabela: um dia depois de decorar uma lista, Ebbinghaus precisou de cerca de dois terços do tempo original para decorar a lista de novo. A economia foi de 33,7%.

Daí vem a confusão. É fácil ler "33,7%" como "lembrou 33,7%" e concluir que esquecemos dois terços de tudo em um dia. Não foi isso que ele mediu. A economia mostra quanto ficou guardado, mesmo quando você não consegue lembrar de nada de cara. E sílabas sem sentido são o pior caso possível: não se ligam a nada que você já sabe.

O que vale para qualquer conteúdo é o formato da curva. A perda é rápida nas primeiras horas e fica cada vez mais lenta. Depois de um mês, ainda sobrava algo.

A curva do esquecimento é real?

Sim. Em 2015, os pesquisadores Jaap Murre e Joeri Dros, da Universidade de Amsterdã, refizeram o experimento com o mesmo método. Um participante passou cerca de 70 horas decorando e redecorando listas de sílabas, com intervalos de 20 minutos a 31 dias. Os resultados ficaram parecidos com os originais.

O estudo trouxe um detalhe interessante: a curva não é totalmente lisa. Perto das 24 horas, a economia sobe um pouco em vez de continuar caindo, e os autores associam essa melhora ao sono entre as sessões.

Como usar a curva do esquecimento nos estudos

1. Revise antes de esquecer tudo, mas não logo em seguida

Revisar no mesmo dia rende pouco, porque o conteúdo ainda está fresco. Esperar demais obriga você a quase começar do zero. O ponto certo é quando você já esqueceu um pouco e ainda consegue recuperar com esforço.

2. Ajuste o intervalo à data da prova

Um estudo de 2008, com 1.354 participantes, mediu qual intervalo entre duas sessões de estudo dava a melhor lembrança em provas feitas depois de uma semana, cinco semanas, dez semanas e quase um ano. Os melhores intervalos foram:

Quando é a provaQuando revisar depois da primeira sessão
Daqui a 1 semana1 dia depois
Daqui a 5 semanasCerca de 11 dias depois
Daqui a 10 semanasCerca de 3 semanas depois
Daqui a 1 anoCerca de 3 semanas depois
Para provas de algumas semanas, o intervalo ideal ficou em torno de 20% do tempo até a prova. Para provas distantes, a proporção cai.

3. Revise testando, não relendo

A forma da revisão importa tanto quanto a data. Reler o conteúdo dá a sensação de que você lembra, porque o texto parece familiar. Tentar responder sem olhar mostra o que você realmente sabe e fortalece a memória. Os números desse efeito estão no artigo sobre técnicas de estudo comprovadas pela ciência.

4. Durma entre uma sessão e outra

Estudar tudo na véspera e virar a noite junta os dois erros: nenhum intervalo entre as sessões e nenhuma noite de sono entre estudar e lembrar.

Um exemplo de revisão para uma prova daqui a um mês

  1. Dia 1: estude o conteúdo e termine com 10 minutos de perguntas sem consultar o material.
  2. Por volta do dia 7: antes de abrir o material, escreva tudo o que lembra. Depois confira e anote o que esqueceu.
  3. Semana da prova: faça questões misturadas de todo o conteúdo e volte só no que errou.

É mais trabalhoso do que reler o resumo na véspera, e é esse esforço que faz a diferença.

Erros comuns

  • Revisar só o que já sabe. Dá sensação de progresso e não muda nada.
  • Confundir reconhecer com lembrar. Reconhecer uma resposta quando ela aparece é mais fácil do que produzir a resposta sozinho, que é o que a prova pede.
  • Tratar a curva como uma regra fixa de dias. Não existe um número mágico de revisões. O intervalo depende do conteúdo, do quanto você já sabe e de quando vai precisar.

Esquecer não é falha. É o ponto de partida. O que faz o conhecimento ficar é o que você faz entre uma sessão e outra.

Perguntas frequentes

Quem criou a curva do esquecimento?

O psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus, que publicou os resultados em 1885 no livro Sobre a memória.

Quanto esquecemos em 24 horas?

Nos dados de Ebbinghaus, um dia depois, reaprender a lista exigiu cerca de dois terços do tempo da primeira vez. Isso não quer dizer que ele tenha esquecido dois terços do conteúdo, e o experimento usou sílabas sem sentido. Com conteúdo que você entendeu, os números mudam; o formato da curva continua valendo.

A curva do esquecimento é real?

Sim. O experimento foi refeito em 2015 por pesquisadores da Universidade de Amsterdã, com resultados parecidos com os de Ebbinghaus.

Quantas revisões devo fazer?

Não existe um número fixo. O que as pesquisas mostram é que revisar testando, com intervalos que crescem conforme a prova fica mais distante, funciona melhor do que concentrar tudo perto da data.

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Thiago Ferreira
Thiago Ferreira

Thiago Ferreira é Head de Marketing da TWE Educação e trabalha desde 2007 com marca, experiência do cliente e treinamento de equipes, em empresas como P&G, JBS, Ambev, BRF e iFood. É formado em Psicologia pela UNIP, com especialização em Neuromarketing pela FAAP e em Educação Corporativa e Inovação Estratégica pela PUCPR.

Fontes

  1. Ebbinghaus, H. (1885). Über das Gedächtnis: Untersuchungen zur experimentellen Psychologie. Leipzig: Duncker & Humblot.
  2. Murre, J. M. J., & Dros, J. (2015). Replication and analysis of Ebbinghaus' forgetting curve. PLOS ONE, 10(7), e0120644. https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0120644
  3. Cepeda, N. J., Vul, E., Rohrer, D., Wixted, J. T., & Pashler, H. (2008). Spacing effects in learning: a temporal ridgeline of optimal retention. Psychological Science, 19(11), 1095 a 1102. https://journals.sagepub.com/doi/10.1111/j.1467-9280.2008.02209.x
  4. Roediger, H. L., & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249 a 255. https://journals.sagepub.com/doi/10.1111/j.1467-9280.2006.01693.x